Hoje me dei essa chance de sair de mim, depois de uma intensa madrugada de insônia, de palavras verdadeiras lançadas ao ar que vieram parar aqui, diante dos meus olhos, na tentativa de cumprirem a terrível missão gritar aos meus olhos, ainda que tivesse, realmente, que sair de mim. Fugir àquilo que chamo de "parada obrigatória".
Então, ontem, eu chorei de solidão... E que gosto amargo essas lágrimas têm! E quando os olhos já doíam tanto quanto todo o restante - por dentro e por fora - eu morri e ressuscitei nove horas depois já prevendo o que eu esperava de mim pra esse dia tão ensolarado. E sim, não dou mais o direito de esperarem nada de mim, nada que eu não possa dar, ser, fazer... Vivi muitos anos fazendo isso, doando falsos sorrisos. E o que eu recebi? Merecidamente, falsos amores.
Depois, aquele vento gelado do inverno veio - de dentro pra fora - e me rendi ao calor que não era teu... e quando fechei a rede sobre meu rosto pensei: eis o meu casulo, eis o motivo das dores, são asas nascendo, externando meu desejo de voar, sem fronteira, sem eira nem beira. Mas, ainda, não posso, porque em todas as demais vezes que pensei que estivessem prontas, eu as quebrei. Destruí minhas asas, e sabem o que temos que fazer quando isso acontece? Voltar ao casulo e deixar o tempo recuperá-las... É por isso que estou aqui agora, presa, limitada, estagnada... Estou deixando que o tempo me dê, novamente, uma chance de tentar um voo calmo, sair desequilibrado janela a fora, perto da lua, sobre o mar... sem nada esperar. Pousar em uma árvore ao invés de sonhar e arriscar voos tão altos, como os de antes que me deixaram sem fôlego e de asas podadas.
Alguns passam a vida inteira com asas quebradas e nunca se permitem voltar ao casulo pra se refazerem, nunca permitem que o tempo lhes dê uma nova oportunidade, não sabem esperar e nem merecê-la. Acho triste ficar aqui sozinha, mas sei que um dia posso sair e isso é melhor do que continuar solta e limitada pra sempre.
Enquanto estava ali lendo, meus cachorros me rodeavam e me davam lambidas das mais gostosas, eles sim, eles sabem o que tem se passado nesse meu olhar. Eles sentem... não mentem.
A noite caiu e eu não pude segurá-la, a lua subiu e nem pude alcançá-la... Mas, pude correr ao encontro do vento batendo no rosto. E senti que o tempo me dizia: "corre, corre e um dia voarás com a mesma intensidade, porque só eu sei o quanto me esperas, o quanto me veneras e o quanto aprendeste a estar aqui comigo, no ritmo do agora
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